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FREUD NO SERTÃO DE RITINHA

Na cidade de Juá, a sede não é só de água, mas de amparo. O Coronel Leôncio, com seu carro-pipa minguado, não era apenas o dono da terra; era o "pai da horda" que preenchia o vazio do deserto com a ilusão de poder. O povo sabia de suas falcatruas, mas a decência solitária de Pedro parecia árida demais perto da embriaguez de pertencer ao grupo do tirano. Preferiram a mentira sobre Ritinha ao abismo de encarar o sol sem um guia.

Mas a hipnose das massas é frágil diante da traição do afeto. Quando os bichos do sertão denunciaram que o Coronel não só roubava, mas feria a "menina da chuva", o encanto se quebrou. O choque da realidade desfez o vínculo libidinal. Ao verem o monstro sob a farda, a fúria despertou a consciência: a massa deixou de ser rebanho de Leôncio para buscar, enfim, a dignidade ao lado de Pedro.

Márcio Lacerdda

Psicanalista | Escritor Literário Brasileiro

Este texto propõe uma leitura psicanalítica do Capítulo III ao VI da obra "O Sertão Encantado de Ritinha", fundamentada nos conceitos de identificação e laço libidinal desenvolvidos por Freud em "Psicologia das Massas e Análise do Eu".

O SACI DOS INHAMUNS NO DIVÃ

ENSAIO PSICANALÍTICO

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Dia desses, um Saci me apareceu. Menino negro, estatura diminuta, do tamanho de um macaco-prego. A prenúncio de sua presença foi anunciado por uma forte ventania, um redemoinho que se esvanecera no terreiro. Quando minha atenção se desprendeu do que acontecera há pouco e voltei os olhos para o interior do consultório, lá estava ele: gorro vermelho na mão, deitado no divã.

— Dotô, tô precisando conversar — replicou com um olhar perdido, mas sem perder o ar traquino que dançava em sua face.

— Ok... — foi a única coisa que consegui dizer, embargado pela surpresa de ter o ilustre analisando em meu consultório. Enquanto isso, peguei meu caderno de anotações e comecei a ouvi-lo.

— Homi, ontonte vinha pra assanhar as abelhas de arapuá lá pelas bandas do Rio Poti, perto das cacimbas adonde as muié busca água...

Nesse momento, seu olhar para e sua fala se esconde e seus pensamentos ficam perdidos em algum lugar entre o real e as lembranças. Respeitei seu silêncio; sabia que era necessário para que o inconsciente fluísse como o Rio Poty em tempos de chuva. Depois disso, retomou o discurso:

— Vinha eu, quando avistei o Firmino, o capitão do mato...

Mais um silêncio, uma risada traquina e uma defesa psíquica para fugir do que havia começado:

— Oxe, dotô, aqui num tem cavalo?

— Não.

— Num tem cozinha?

— Não. Aqui é um consultório e, geralmente, não temos essas coisas — respondi, sabendo bem o que aquilo significava. Ele queria fugir para não ouvir a si mesmo. Queria mudar de assunto, depois, quem sabe, despedir-se sem falar o que no fundo queria e sumir tão rápido quanto apareceu. Mas não poderia deixá-lo fazer isso. O analista é o espelho para aquilo que precisamos ver em nós mesmos e não temos coragem.

— Você dizia que estava indo para as cacimbas perto do Rio Poty...

— Quem? Eu? Num alembro.

— Sim. Parecia ser uma história interessante. Gostaria de ouvir — precisei instigá-lo, mas sem forçá-lo a nada; por isso, vali-me da vaidade do pequeno ser que amava contar vantagens.

— Ah, pois se é assim, eu conto. É que vi o Firmino vindo para falar com o Coroné. Só pode que aquilo lá vinha enredar alguma coisa dos escravos pru mardito do patrão dele.

— Dos escravos? — indaguei.

Notei que a pergunta pesou no pequenino.

— Dos escravos — repetiu baixinho, com olhar distante.

Nesse momento, ele viu o que não queria ver: a cor de sua pele entranhada com aquela história horrenda. Deixei que o silêncio o tomasse, o conduzisse, o alimentasse. Depois de um tempo, continuou:

— Sim, dos meus  irmão.

— E como é para você pertencer a essa irmandade? — perguntei.

As respostas foram trôpegas, vagas e incertas. A defesa do inconsciente, envenenada pelo veneno do preconceito, também habitava nele como um parasita. Foram anos, especialmente no Brasil, sob a cultura do branqueamento, onde tudo fora desse padrão era repudiado. Isso também afetou os que sofriam tal repúdio cruel, inclusive o Saci dos Inhamuns, que, antes de ser Saci-Pererê, havia sido escravo.

1. A Perspectiva Literária: O Mito no Divã

O texto utiliza um recurso metalinguístico eficaz: O terapeuta "anestesia" a distância entre o sagrado (o Saci) e o profano (a clínica).

  • O Cenário de Limiar: O consultório, lugar de silêncio e introspecção, substitui a mata fechada. O Saci perde sua onipotência mágica para ganhar uma dimensão trágica. Ele não é mais apenas o "espírito do mato", ele é o "sujeito da falta".

  • A "Travessura" como Narrativa de Fuga: Na literatura, a figura do trickster (o trapaceiro) é aquela que quebra regras. Aqui, essa quebra de regra é transferida para a estrutura da sessão psicanalítica: ele tenta "fugir" do divã da mesma forma que foge das armadilhas dos humanos.

2. A Ótica Psicanalítica: O "Parasita" do Preconceito

Um dos pontos altos do texto é a revelação de que o Saci foi, um dia, escravizado. Isso revela a noção de identidade traumática.

  • O Inconsciente "Envenenado": chamamos de introjeção do opressor. O preconceito não é apenas algo que o Saci sofreu, é algo que ele "engoliu". A alienação ocorre quando o sujeito começa a odiar sua própria cor e origem porque o sistema lhe impôs esse estigma.

  • O Saci como "Sujeito da Falta": A psicanálise afirma que somos constituídos pela falta. No Saci, essa falta é tripla: a perna (castração física/resistência), o nome/origem (o "antes de ser Saci" recalcado) e a aceitação (a busca por negar a própria irmandade).

3. A Dinâmica da Sessão: O Terapeuta como Espelho

O narrador não é um observador passivo; ele assume o papel de Superego analítico.

  • A Resistência: O Saci é um analisando típico. Ele usa a "vaidade" e a "traquinagem" como escudos. O terapeuta, agindo como espelho, força o Saci a olhar para sua própria pele. O terapeuta, agindo como espelho, força o Saci a olhar para sua própria pele. Ressalto que esse ‘forçar’ é antagônico ao setting psicanalítico, sendo empregado aqui exclusivamente como uma demanda da construção literária..

  • O "Flash" de Dor: A transição do Saci mitológico para o Saci histórico ocorre através da palavra. Ao nomear "meus irmãos", o Saci rompe a barreira do mito e entra na História.

Conclusão: O Mito que se Humaniza

O texto é um exercício de humanização do trauma. O trauma da escravidão é tão profundo na psique brasileira, aqui simbolizado pelo Saci, que não há como escapar desse legado sem passar pelo rigoroso processo de elaboração. O Saci, neste texto, não precisa de uma perna de madeira ou de um redemoinho para ser completo; ele precisa de voz. A cura, para este Saci, é o reconhecimento da sua própria origem, deixando de ver a sua negritude como um lugar de "repúdio cruel" e passando a integrá-la à sua identidade.

NOTA TÉCNICA

"Ressalto que a condução clínica narrada no texto opera sob a égide da alegoria psicanalítica, integrando fundamentos da teoria do trauma e da resistência a uma estrutura dramática. É necessário notar que, em determinados momentos, o analista se desvia da neutralidade técnica e da abstinência esperadas em um setting convencional. Contudo, essa diretividade é um imperativo da economia narrativa: o tempo comprimido do texto exige que o analista atue como um agente condutor, acelerando o desvelamento do material recalcado. Em uma prática clínica autêntica, esse analista seria um aliado do tempo subjetivo, permitindo que o analisando, por meio da associação livre, produzisse suas próprias conexões, em vez de ser instigado pelo terapeuta como o momento literário aqui demandou."

Márcio Lacerdda

Psicanalista | Escritor Literário Brasileiro

Este texto propõe uma leitura psicanalítica do Capítulo III ao VI da obra "O Sertão Encantado de Ritinha", fundamentada nos conceitos de identificação e laço libidinal desenvolvidos por Freud em "Psicologia das Massas e Análise do Eu".

​Márcio Lacerdda (grafado com dois 'Ds') — Psicanalista Clínico (UFC/PUC-RS) e Escritor Literário da Região dos Inhamuns e Tauá. Membro da Academia Tauaense de Letras (Cadeira 04). Autor do romance 'O Sertão Encantado de Ritinha', obra premiada no Concurso Internacional Literário da UBERJ (60 anos) em 2018, traduzida para o inglês e espanhol com distribuição global. Autor de 'Inhamuns: Lendas, Assombrações e Liberdade', selecionado para publicação tradicional pela Editora A Arte da Palavra (2026). Pessoa distinta do político homônimo Márcio Lacerda (1 D).

© 2026 Márcio Lacerdda | Psicanalista (SOBRASPSI) e Romancista | Tauá - Quiterianópolis - Inhamuns

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